Te mandaram embora. Mas por que dói tanto?
Uma demissão nunca é apenas profissional. Mexe com inseguranças, ativa feridas antigas, toca lugares que nem sabíamos que eram tão frágeis.

Quase todos nós já passamos por isso. Ou fomos demitidos. Ou tivemos que demitir. Ou acompanhamos alguém que viveu isso.
E quase sempre se repete o mesmo roteiro: o RH manda o e-mail. O chefe ensaia o que vai dizer. A reunião dura dez minutos. E segue a vida. Mas... será que funciona mesmo assim?
Esse roteiro "limpo e profissional" parece certo. Mas muitas vezes só serve para não olhar o que está se rompendo. Porque uma demissão não é um trâmite. É um corte. E dói.
E se essa famosa "objetividade" não passar de um disfarce para não sentir? E se falar pouco, agir rápido e seguir como se nada tivesse acontecido for justamente o que deixa a ferida aberta?
Queria evitar o drama?
Acabou gerando um trauma silencioso.
Será que é mesmo eficiente? Toda vez que alguém é demitido sem espaço, sem palavra, sem sentido, algo também se rompe em quem fica. Na equipe. Na cultura. Na confiança.
Porque uma demissão nunca é só profissional. Mexe com inseguranças, ativa feridas antigas, toca lugares que nem sabíamos que eram tão frágeis.
E se não pensamos nisso, fica flutuando. Como um nó que ninguém desatou.
Se te demitiram: por que dói tanto? Rejeição. Vergonha. Raiva. Desvalorização. Sensação de vazio.
Não é exagero. Não é drama. É real. É emocional. E faz sentido.
Duas coisas fazem o golpe doer mais
A ferida no ego
Desde crianças, acreditamos (e precisamos acreditar) que somos importantes. Que ocupamos um lugar. Que temos valor.
O trabalho muitas vezes reforça essa ideia: nos dá identidade, reconhecimento, estrutura. Nos faz sentir alguém.
Por isso, quando somos demitidos, sentimos que já não somos ninguém. Que algo em nós se quebrou.
E não, não é só o cargo ou o salário. É a imagem que tínhamos de nós mesmos. E a ideia de que tudo estava sob controle.
O que se rompe com o outro
No trabalho também construímos vínculos. Não só relações profissionais: afetos, rotinas, lealdades. Às vezes o chefe representa mais do que achamos. Às vezes a empresa vira uma espécie de família.
Quando somos demitidos, se rompe algo que não é só contratual. Se rompe algo emocional, simbólico.
Não vai embora só a renda. Vai embora o lugar onde você era reconhecido, onde sabia se movimentar, onde até se sentia querido.
Por isso parece traição. Ou abandono. Mesmo que seja "só" trabalho.
E se, além disso, tudo é frio, sem explicação nem acolhimento, a ferida fica mais difícil de fechar. Porque você não perdeu só um cargo: um laço se rompeu. E isso também precisa de luto.
Quando a raiva pede vingança
Depois do golpe, é normal imaginar vingança. Que eles se toquem. Que percam. Que sofram como você sofreu.
E sim, essa fantasia tem lógica: quando algo dói, procuramos alguém para culpar. E colocamos tudo no outro. "O errado foi ele." "Eu sou o bonzinho."
Mas essa forma de ver as coisas não ajuda. Nos prende num lugar sem saída.
Porque ninguém é só vítima ou só carrasco. E enquanto não conseguirmos ver que todos temos partes boas e partes feias, a história não se elabora. Se repete.
Sair do preto no branco não é justificar. É poder integrar. E, ao integrar, soltar.
A vergonha: aquilo que não se diz (mas que pesa)
Vergonha de dizer. De que fiquem sabendo. De "ter falhado."
Às vezes essa vergonha dói mais do que a própria demissão. Faz você se esconder. Ou agir como se nada tivesse acontecido. Ou exagerar para compensar.
Mas vergonha do quê? De não ser perfeito? De sua história não ser uma linha reta?
A vergonha aparece quando sentimos que decepcionamos alguém — ou a nós mesmos.
E se alimenta do silêncio.
Luto: o que realmente ajuda (mesmo doendo)
Uma demissão é uma perda. E, como toda perda, precisa ser pensada, sentida, elaborada.
E o que se perde? Mais do que parece.
O cargo vai embora. Sim. Mas também: a rotina, os colegas de todo dia, o grupo do WhatsApp, o status, por menor que fosse.
Tudo isso constrói sua identidade. E quando ela cai, é preciso se reconstruir.
Quer começar a elaborar isso? Tente:
- Dê um nome à dor.
O que mais te doeu? Que parte de você estava muito investida ali?
- Não caia na culpa automática.
Ter sido demitido não significa que você não serve. Nem sempre é justo. E mesmo que tenha havido erros, eles não te definem.
- Procure com quem falar de verdade.
Nem todo mundo sabe escutar. Mas quando você encontra alguém que sabe, e que não julga, algo diferente se abre. Porque o que é dito já não pesa igual. E o que é nomeado começa a se soltar.
- Dê tempo a si mesmo.
Não existe uma data para "superar". Existem processos. O seu tem seu próprio ritmo. Acompanhe-o.
Te mandaram embora, mas não te apagaram
Uma demissão é um final. Mas não precisa ser um apagão. Dói, sim. Principalmente quando tudo acontece rápido, sem palavras, como se você não importasse.
Mas você importa, sim.
E enquanto você não conseguir entender o que aconteceu — e o que isso mexeu em você —, o fechamento não chega. Fica aberto. Confuso. Preso.
A psicanálise não está aí para te dizer que tudo passa. Está para te ajudar a pensar o que aconteceu com você. E isso, mesmo doendo, liberta.
Porque entre te mandarem embora e te apagarem… existe uma grande diferença.
E o que te salva não é esquecer. É poder pensar sobre isso.
Se isso mexeu com você, não abafe. Falar, escrever, pensar: o que for que te tire do silêncio já é um primeiro passo.
Agora que você sabe de tudo isso, o que vai fazer com o que mexeu em você?



