SIN GAFETE
O TRABALHO TAMBÉM PODE SER ANALISADO.

A entrevista de emprego: teatro ruim com consequências reais

Por que continuamos participando dessa farsa? Candidato e entrevistador atuam. Eles se adaptam. Eles se julgam. E depois se perguntam por que nada se encaixa.

schedule7 MIN DE LEITURARECRUTAMENTO
A entrevista de emprego: teatro ruim com consequências reais

Por que continuamos participando dessa farsa? Candidato e entrevistador atuam. Se adaptam. Se julgam. E depois se perguntam por que nada encaixa.

Se queremos parar de escolher gente que não encaixa, primeiro é preciso entender o que se representa nesse espaço e por que tantas vezes ninguém realmente se encaixa.

Isto não é só uma entrevista

É um ritual de seleção onde a autenticidade é sacrificada no altar de um "encaixe" que ninguém ousa questionar. Uma coreografia de expectativas implícitas, respostas decoradas e silêncios estratégicos. Um teatro absurdo.

Em teoria, a entrevista deveria nos ajudar a saber se alguém tem o necessário: habilidades, atitudes, compatibilidade com a cultura da equipe. Mas o que realmente significa essa "compatibilidade cultural" que usamos tanto como filtro? Não seria uma forma elegante de perpetuar a homogeneidade e o status quo?

As entrevistas estão carregadas de nervosismo, fantasias e atuações. Um quer agradar, o outro quer manter o controle. Ninguém é completamente honesto, mesmo que pareça. E é aí que começa a função. Uma função que, talvez, esteja perto de terminar.

Entender esse show é o primeiro passo. O seguinte, talvez, seja nos perguntar se esse formato ainda funciona ou se já é hora de imaginar algo diferente. Desmontar a farsa.

O que acontece com o candidato (mesmo que ele não diga)

Ninguém chega em branco. O candidato traz medos, inseguranças e uma urgência de ser aceito. E o ambiente é feito para disparar isso: uma figura desconhecida vai avaliá-lo, existe uma vaga desejada, e muita tensão no ar.

Transferência

O candidato projeta no entrevistador figuras do passado (o chefe que exigia, o pai que julgava). E a partir daí adapta seu discurso: exagera conquistas, desvia de temas, atua.

Falso Self

Para enfrentar o medo de não pertencer, surge uma versão adaptada para sobreviver, que toma a palavra na entrevista. Diz-se o que se espera, não o que se sente.

Atua-se para se encaixar, não para se mostrar. Mas se você contrata o personagem e não a pessoa, o conflito chega depois. Ou pior: a pessoa se adapta tão bem à disfunção que acaba reforçando-a.

Exemplo:

Alguém com experiência começa a falar baixinho, se enrola. Não é falta de preparo, é medo de ser rejeitado de novo. O entrevistador precisa ler nas entrelinhas. A verdade quase nunca está na resposta perfeita. Está nos gestos, nas pausas, no que não se diz. Nas meias-verdades.

O entrevistador também atua

Você também não chega limpo. Traz suas ideias, sua história e também seu personagem: o avaliador "objetivo", aquele que acha que sabe ler as pessoas.

Mas muitas vezes você não entrevista para entender, e sim para confirmar. O narcisismo do papel de avaliador se infiltra. A entrevista vira uma forma de reafirmar sua intuição, seu poder, seu lugar. Um exercício de autoengano.

Você está realmente escutando o candidato ou está buscando confirmar que está certo?

Se você não reconhece suas projeções, entrevista a partir do viés. O poder de julgar te leva a confirmar o que você já acreditava. E a descartar o talento que desafia seus preconceitos. Alguém quieto te incomoda, mas talvez seja justamente o que sua equipe barulhenta precisa.

Não se trata só de capacidades (nem de ideais impossíveis)

Não se trata de encontrar a pessoa mais brilhante. Trata-se de ver se ela consegue entrar num sistema com história, tensões e estilo próprios. Um sistema que raramente ousa se questionar.

O problema do "encaixe cultural" é que muitas vezes ele é buscado como desculpa para contratar quem se parece com a gente. Isso se traduz em conforto: pessoas que não incomodam, que não questionam, que não evidenciam o que já não funciona. Uma forma sutil de discriminação.

Preferimos alguém que se adapte a esse caos em vez de alguém que o confronte. Assim perpetuamos o problema sem dizer isso. Por isso é preciso ver se o candidato consegue se vincular sem se quebrar… e se tem a coragem de questionar o que não funciona. Se ousa apontar que o rei está nu.

Guia para entrevistar (e fazer o teatro servir... ou acabar)

Sabemos que a entrevista é teatro. Mas pode servir. Para isso:

Antes de entrevistar: desmonte o cenário

A entrevista começa muito antes de o candidato entrar:

  • O que a equipe realmente precisa? Mais do mesmo ou uma sacudida que a impulsione para frente?
  • Que tensões existem? Estamos procurando alguém que as ignore ou que tenha a habilidade de transformá-las?
  • Que tipo de pessoa consegue aguentar (e crescer) nesse caos? Alguém que venha para quebrar o molde?
  • Estamos prontos para mostrar o que não funciona? Estamos dispostos a deixar o candidato questionar nosso "sagrado" status quo?

Sem essa análise honesta, você pode contratar alguém "perfeito para a cultura" e afundar a equipe na mediocridade.

Durante a entrevista: quebre o roteiro

Não repita o roteiro de sempre. Melhor explorar:

  1. Que tarefas mais te esgotam? Que situações roubam sua energia?
  2. Que tipo de chefe é complicado para você? Com quem você entra em atrito e por quê?
  3. Em que ambiente você trabalha melhor? Onde você se sente realmente você mesmo?
  4. Como você resolveu um conflito? Como você defende suas ideias quando mais ninguém defende?
  5. Alternativas radicais: por que não abandonar as perguntas prontas e optar por cenários de trabalho simulados? Ou por uma conversa aberta sobre um problema real? Essas dinâmicas são janelas para a realidade.

Não interrogue. Abra o espaço. Escute mais do que fala. Seja curioso. Deixe fluir.

Cuide do ambiente. A empatia não é enfeite, é ferramenta de diagnóstico.

Deixe o candidato perguntar. O que ele pergunta também importa e nos dá a oportunidade de sermos transparentes.

Depois da entrevista: dispense os personagens

Escolher também é soltar fantasias. Você não vai encontrar a pessoa perfeita. Vai encontrar alguém que consiga construir algo real num contexto imperfeito. Com suas próprias imperfeições.

Vínculos

Consegue formar vínculos saudáveis, baseados em confiança e respeito?

Cultura

Consegue tolerar, melhorar ou transformar essa cultura sem se perder?

Autenticidade

Vai conseguir trabalhar sem fingir? Ou vai ter que colocar uma máscara toda manhã?

A entrevista é uma conversa entre pares, não um julgamento. Explorem juntos se querem colaborar.

O ato final: o fim da peça?

Se tudo isso soa exaustivo, é porque é. Entrevistar, do jeito que fazemos hoje, arrasta inércias que já não servem. Continuamos atuando um roteiro velho, esperando resultados novos. Uma loucura.

Talvez o futuro não esteja em aprimorar a entrevista perfeita, mas em desmontá-la. Em deixar de buscar certezas rápidas e abrir conversas mais honestas. Em construir formas de encontro que reconheçam a complexidade do humano. Em abraçar a incerteza.

A real:

Entrevistar não é julgar. É abrir um espaço real para ver se alguém pode entrar numa rede viva de relações sem quebrá-la… nem se quebrar.

Se você não está disposto a ver isso, não está entrevistando. Está montando uma peça que ninguém mais quer ver. Uma peça que, com sorte, logo deixaremos de encenar. Para dar lugar a um novo ato. Mais humano. E, acima de tudo, mais eficiente.

Daniel Alencar

Daniel Alencar

Soy Daniel Alencar, psicoanalista en Ciudad de México. Conozco el lenguaje corporativo porque lo viví desde adentro. Hoy acompaño a quienes los problemas del trabajo ya no explican lo que sienten

AGENDA TU SESIÓNarrow_forward

© 2026 SIN GAFETE. TODOS LOS DERECHOS RESERVADOS.